domingo, 6 de fevereiro de 2011

CONTROLE ABSOLUTO - O FILHO


Desde pequeno foi se acostumando com a presença de sua mãe em tudo o que fazia. Ela era seu mundo. Carinhosa, lhe satisfazia todas as vontades. Ela sempre estava certa, parecia ter um sexto sentido, e, às vezes, ela mesma dizia que tinha...era uma coisa de mãe, que sentia tudo o que acontecia com o filho. Então foi se acostumando a ouvir seus conselhos, até quando não pedia. A mãe o orientava, dizia o que fazer, como e quando fazer. Ditava as palavras, os gestos, os modos. Quais pessoas eram de confiança.

Quando tinha um problema na escola, era ela quem ia resolver, quando brigava com algum coleguinha na rua, ela ia tirar satisfação. Se algum adulto o tratava com rispidez, ela o defendia como uma leoa. Quando tinha que comprar roupa, calçado, lanche, brinquedo...era sempre ela quem ia. Ela sabia onde estavam os melhores preços, quais os melhores modelos, que roupa era mais adequada para seu corpo...ela era mais articulada, sabia conversar bem melhor que ele, fazia amizades facilmente e parecia ter um toque mágico. Tudo o que ele achava dificílimo, ela resolvia em minutos e com um sorriso no rosto, sem transpirar. Ela era incrível! E quando precisou sair de casa sozinho ela lhe deu todas, absolutamente todas as orientações de que rua entrar, de não falar com ninguém, de ligar a cada meia hora para avisar como e onde estava e , se o filho não ligasse, ela mesma fazia isso.

Mas isso não quer dizer que esse filho nunca tenha se arriscado sozinho. Ah, sim, ele teve seus momentos! De loucura, como ela mesma disse. Foi quando se arriscou na vida. Tentou ir de ônibus sozinho até a casa da vovó...mas percebeu, já na rua, que não sabia o nome do tal ônibus e que não tinha o número do telefone da casa da vovó para perguntar. Era a mãe que fazia tudo isso! Então voltou para casa para perguntar à ela... e, depois de superar o surto de pânico da mãe por ter saído sozinho, sem avisar para onde ia e ter passado quinze minutos sem dar notícias, se sentiu culpado por deixá-la tão preocupada. Onde estava com a cabeça? Sair sem avisar a mãe. O que estava pensando? Podia mesmo ter entrado no ônibus errado e ido para algum lugar bem longe, de onde não voltaria nunca mais para casa, não veria a mãe nunca mais! Meu Deus, isso não! Podia ter sido sequestrado, vendido no mercado negro de orgãos. E todos aqueles homens maus que poderiam lhe pegar e fazer coisas horríveis. E era um idiota por achar mesmo que iria sair de casa sozinho, sem nem saber como fazer isso. Como não tinha pensado antes de sair que não sabia como chegar onde ia? Decidiu que perguntaria sempre antes, que não causaria mais tantos problemas para a mãe. Ela sofreu muito e estava certa. Ela sabia o que era melhor para o filho e conhecia a maldade do mundo.

E depois disso, perguntava onde era a loja, o mercado, a agência de emprego...o endereço, como chegava lá, com quem deveria falar, que roupa deveria usar. E a mãe parecia perceber que ele não daria conta sozinho e, para seu alívio, ia junto. Ou ia em seu lugar...

Algumas vezes, ele teve vontade de ser mais independente, de resolver sozinho o que iria fazer da vida, que curso faria na faculdade ou que cor de meia compraria. Mas quando tentou dizer à mãe, quase teve que chamar uma ambulância para ela, porque ela passou mal. Ingrato. Ela tinha se sacrificado tanto por ele, feito de tudo para ele ser feliz, para protegê-lo e agora ele estava dizendo que a opinião dela não valia de nada! Não, não era isso, mas ela não entendia o que ele queria dizer... nem ele tinha as palavras certas. Ela sempre falava por ele e agora que precisava ser claro, não conhecia a metade das palavras que ela conhecia. E não sabia como defender sua própria vontade. Ela entendeu tudo errado e ele não sabia nem como concertar, nem como se posicionar, confrontar.

Confronto era mais um problema para o filho. Nunca precisou brigar com ninguém por nada, ou, se precisou, foi depois de ter falado tudo para a mãe e ouvido dela as palavras que deveria usar para vencer o debate. Então, não sabia que se fosse firme em sua própria opinião, poderia mostrar que tinha razão.Não sabia fazer isso e não podia perguntar para a própria mãe como deveria confrontá-la. Era um impasse em que ele se acostumou a se ver sempre na vida. Porque sempre que queria se impor para a mãe, não sabia como fazer e a única que poderia orientá-lo era quem ele queria contrariar. Desistiu. Em muita coisa ela estava certa. O mundo não era de confiança, ele não sabia fritar um ovo sozinho, não sabia se defender, não sabia pedir aumento ao patrão, não sabia qual o preço das coisas no supermercado, não daria conta da vida sem ela.

Foi abrindo mão dos sonhos. Eram absurdos. Morar e estudar fora do país? Imagina! Lugar estranho, língua diferente e a mãe a milhares de quilômetros de distância! E quem iria lavar sua roupa e fazer seu almoço? E a mãe, mesmo, dizia que isso tudo era ilusão. Ela já tinha passado por isso, tinha se decepcionado, quebrado a cara e sabia que não daria certo. Era melhor ouví-la, mesmo. Desistiu disso e de muitas coisas. Não foi morar com a namorada quando estava na faculdade, não foi concorrer à carreira militar, não entrou para o seminário, não participou do show de talentos, não fez tatuagem, não fez sexo antes dos dezoito anos, não namorou escondido com a menininha do colégio, não deixou a religião, não foi às festas e baladas que todos iam, não tomou nenhum porre antes dos vinte e um e , quando tomou, tentou esconder dela, mas ela com aquele sexto sentido, já sabia de tudo quando ele chegou em casa no outro dia. É importante dizer que ela ficou de cama quase uma semana por causa disso! Nunca comprou uma peça de roupa sem a opinião dela, não se casou, porque ninguém seria tão boa nem faria tudo o que ela fazia, nem teria paciência com suas manias. Tinha frescura para comer, para se vestir, para dormir. Só a mãe entendia... Só se casaria quando a mãe aprovasse a noiva e teria que morar perto, pelo menos na mesma cidade, caso a mãe precisasse dele ou vice versa. E, é claro que a mãe seria de suma importância na criação de seus filhos...

Pensava que era melhor viver sossegado, deixar a mãe feliz. Ela era muito frágil. Sempre ficava doente, seu coração era fraco. Por que fazê-la passar desgosto, ela poderia passar muito mal, ou até coisa pior! Diante do horror de imaginar seu mundo sem ela, ele estremecia. Não sabia o que sentia, mas era como se um abismo se abrisse à sua frente. Não! A mãe seria eterna! E ele faria o que estivesse ao seu alcance para tê-la sempre ao seu lado. Não valia a pena sacrificá-la para viver suas ilusões. Ela sofreria à toa, pois o desfecho já se sabia: Ele quebraria a cara e voltaria para casa...e ela, já depois de tanto sofrimento pelo filho ingrato, se tornaria amarga e ficaria muito tempo jogando isso na cara dele. Não valia a pena mesmo, nem tentava.

Mas no fundo, escondida atrás do medo de perdê-la, estava a raiva de ter se tornado tão dependente. A verdade é que ele não queria perder a mãe, porque não sabia como se virar sem ela e não sabia como se afastar sem magoá-la. Como foi que ele ficou assim, sem vida própria? Não tinha lembrança de um único momento importante de sua vida em que ela não estivesse presente, de maneira decisiva. Suas escolhas mais sérias sempre se baseavam na vontade dela. Nem sabia se tinha vontade, não sabia o que queria, sem perguntar para ela. Achava muito difícil decidir. Era mais fácil pedir a opinião dela, porque ela sempre sabia o que era melhor e ele não precisaria se preocupar com as consequências, caso escolhesse errado.

Seus amigos já dirigiam, tinham seu próprio carro, casa, esposa, filhos, carreira. E ele? Bem...ele tinha ela... Ela precisava dele. A mãe de seus amigos não era tão frágil emocionalmente como a sua. A maioria deles tinha pais com casamentos felizes e famílias bem estruturadas, já no seu caso, a mãe tinha sofrido muito com o desamor do pai, que não a ajudou a cuidar dos filhos pequenos, que não valorizou seus sacrifícios em nome do amor, do casamento e da família... Mas o filho se perguntava se teria todas aquelas suas limitações se tivesse sido criado por outra mãe...Se ela era mesmo tão frágil e doente como ele pensava, se aqueles surtos eram reais...será que ela não exagerava um pouco, só para ele ficar com medo, com a consciência pesada e fazer sempre o que ela queria? Espera! Isso é errado! Só alguém muito cruel e egoísta faria isso, só alguém que não amasse de verdade, como ela o amava. Sim, se tinha alguém no mundo que o amava de verdade, sem pedir nada em troca, era a sua mãe. Ele era mesmo ingrato... ela estava certa!

Não tinha que se comparar a ninguém, nem desejar ser diferente, porque ninguém entendia o que sentia e como tinha vivido. Então, se não era independente e bem sucedido na vida, pelo menos tinha a consciência tranquila por ter cuidado da mãe, tê-la feito feliz, pelo menos um pouquinho, já que ninguém mais fazia... Já que seu pai ou seus irmãos não fizeram!
Seria sempre um bom filho. Um dia seus próprios filhos fariam isso por ele... Não deveria nem estar pensando essas coisas sobre sua mãe.
Ingrato, tolo, ingênuo, incapaz, fraco...

Não deveria ter lido esse texto...deve ser algum tipo de pecado!
E quem escreveu não deve ter tido a mãe que ele teve...

Um comentário:

  1. hahaha, adorei, Val!
    O nosso caso é sempre diferente, né!
    Bjo!

    ResponderExcluir